sexta-feira, novembro 11, 2005

Meu primeiro pregão

Estudar economia para mim, ao contrário do tentaram me convencer na IBMEC, é observar o sujeito comum no dia-a-dia e ver como é que ele se comporta quando o negócio aperta (ou na linguagem mais culta “frente à escassez”).

A bolsa de valores é para mim um ambiente perfeito para observar como os tomadores de decisão se posicionam nas mais diversas situações, mas eu ficava me perguntando; será que só em ambientes de grande circulação de capital as pessoas se organizam desta forma, estruturam a decisões em tão peculiar estrutura?

Esta pergunta foi respondida quando eu e a minha então namorada fomos comprar peixe em um mercadinho de peixes de uma cidade de praia no interior do Rio de Janeiro.

Como uma bolsa de valores o mercado era um condomínio de corretoras (pescadores) que não possuem um poder de mercado suficientemente grande para fazer preços.O trade dos mais diversos bens era feito livremente entre as contrapartes e a liquidação, tanto física, quando financeira era imediata.

A parte interessante ficava com a dinâmica de preços, que não podia ser mais volátil. Tal qual as bolsas de valores, os especuladores (comerciantes, barraqueiros e feirante) que eventualmente vendiam os insumos de suas barracas ali no mercado mesmo, sabiam a hora de chegada dos turistas e donos de restaurante que, não importando o preço tinham que comprar peixes para seu respectivo consumo. Estes especuladores se encarregavam da liquidez do mercado. Eram eles que garantiam o equilíbrio de preço para que as oportunidades de arbitragem fossem muito pequenos.

Um ou outro boateiro/cachaceiros que ficavam bebendo e comendo peixe jogado fora pelos pescadores (os analistas de mercado), a serviço dos especuladores eventualmente, ficavam fazendo conjecturas sobre as condições da pesca e a quantidade de barcos no mar àquela hora a quem quisesse escutar. Naturalmente quando algum dos “analistas” soltava uma bomba do tipo. “Quem estava já voltou, agora não tem mais barco para chegar” a corrida dos turistas por peixes aumentava muito e o preço, naturalmente, ia às alturas. Nessas horas entravam os barraqueiros e peixeiros vendendo seus estoques, complementando a oferta dos pescadores.

Claro que depois de meia hora chegavam mais meia-dúzia de barcos e o preço voltava ao patamar anterior, mas aí o mal já estava feito e os negócios fechados. Iam para casa os incautos turistas com seus camarões sobrevalorizados.

Este microcosmo da “bolsa de peixe” me deu um exemplo da natural formação de mercado e sua estruturação. E mostrou que a sofisticação e a tecnologia podem até melhorar a assimetria de informações e a velocidade dos negócios, mas não muda a essência do mercado que depende muito mais da “ação humana” (praxeologia, na linguagem de Mises) o que da velocidade em que a boleta é processada.